Acabei de terminar um trabalho sobre o conto “A Causa Secreta”, de Machado de Assis. Acho que vou tirar oito, um sete talvez. Não porque meu trabalho esteja ruim, mas porque as frentes de ensino de literatura brasileira nos dias de hoje têm enxergado a literatura por dois lados. Meu provável sete e meio vem da minha tese de que esse professor é um charlatão que não pende a lado algum. Se fosse um radical, minha nota variaria de dois a dez. Logo, fazendo um trabalho decente, analisa-se a faceta de quem o corrige.
Sempre me considerei de direita. Meu pai malufista. No entanto, minhas melhores notas foram atribuídas por esquerdistas. Não sei se eles sentem raiva de mim e querem me passar logo duma vez, ou se realmente simpatizam com minhas idéias. Se a segunda for de acordo, creio que sou um direitista que sabe falar muito bem como um esquerdista. Ou talvez eu seja mesmo um Lulista enrustido.
Quais seriam então essas frentes críticas?
A direita satisfeita, que enxerga a arte como bela e sublime, e que isto basta. Amantes do modernismo, em geral, são assim. Mesmo porque, os grandes modernistas eram nada mais que burgueses que criticavam a burguesia, mas que não deixavam de ser como tais. Estudavam na França, não trabalhavam. Isso faz parte da teoria da bolha, que um amigo meu desenvolveu e que diz algo sobre as pessoas viverem em estado de reclusão, se rotulando e se isolando de coisas que as possam atingir ou afetar seus bem-estares.
Adoro James Joyce. É um brilhante escritor da língua inglesa, talvez o maior do modernismo. Era irlandês e criticava todo o povo de Dublin, que preferia conhecer a Inglaterra e a França a conhecer seu próprio país. Comunicava-se com seus parentes de diversos lugares da Europa em busca de descrições da capital irlandesa para que fossem inclusas em “Dublinenses”. Logo, não morava lá. Suas críticas eram excelentes, mas seus atos comprometedores. Comprava presentes caríssimos a Nora, seu amor e fruto de suas maiores decepções. E eu tirei nove.
A esquerda questionadora também tem lá seu lado hipócrita, mas ao menos vejo seus críticos um pouco mais empenhados em sufocar seus leitores com a verdade devastadora que serve de esqueleto às novelas e contos do realismo/naturalismo, aonde entra Machado. O olhar transcende a obra de arte e se aprofunda no tema social e psicológico. Fazer isso é como levar um tapa na cara. Admitir que existe algo errado, é como tentar sair da bolha. Fazer algo em favor de mudanças é arrebentar essas paredes de hipocrisia.
Machado, claro, foi um dos maiores gênios da literatura mundial. Porém escrevia para as elites, e por elas era adorado. Talvez as elites não entendessem o que era escrito, ou simplesmente liam Brás Cubas da mesma forma com que vemos Casseta & Planeta: rindo das nossas próprias bobagens. Semestre passado, minhas aulas foram com um machadiano de carteirinha, talvez o maior crítico de Machado no mundo. Fiz o curso que precedia o realismo, o romantismo, com esse sujeitinho. Tirei oito e meio. Duas páginas, sujas, espaçamento duplo. Um grande esquerdista da USP esse sujeitinho.
Meu professor desse semestre, como disse, é um charlatão. Descobri tarde demais. Deve ter votado branco. Ano que vem, vou perguntar aos meus possíveis professores em quem eles votaram para presidente, e assim tentar garantir uma nota melhor, e quem sabe até uma filosofia de país um pouco mais firmada.
Rodrigo Popotic
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2 comentários:
é... eu ia pedir para não colocarmos textos políticos, ou que levem a indícios políticos, aqui (devido as nossas divergências), mas acho q é tarde demais... hehehe
Mas, "bora" colocar maiores críticas à sociedade e sua estupidez q tanto nos fascina, hahahhaa
Belo texto...discutiremos ele com cerveja depois!!!
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