sexta-feira, fevereiro 09, 2007

A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções

Este texto, escrito em 17 de Maio de 2006, jamais foi publicado, possivelmente por representar um lancinante arroubo de angústia e indignação que não julguei conveniente compartilhar. Para minha surpresa, meses após sua composição, um amigo o leu e o comentou. Sua crítica positiva me serviu de inspiração para colocá-lo aqui, como primeira contribuição reflexiva a este interessantíssimo espaço. É necessário deixar evidente que o artigo, já bastante longo, está bem longe de ser terminado (prova disso é seu "final" com o início de uma nova e relevantíssima problemática). Em outras palavras, ele foi muito mais um brainstorm do que um sofisticado esforço intelectual para clarificar algumas concepções minhas sobre a universidade e a sociedade (embora de início houvesse, de fato, um esforço nesse sentido). Como parte da minha personalidade (e, consequentemente, dos meus problemas cognitivos), odeio reler meus escritos. Uma breve passada de olhos sobre três parágrafos já revelou cerca de 15 erros (digitação, concordância, gramática, ambiguidades, etc). Mas OK. A mensagem está aí. O princípio pujante e basilar da sensibilidade e da sinceridade, creio eu, foram primordialmente respeitados (talvez até demais para alguns corações). Esta ainda não é a melhor criação para explicar a "pseudo-arquievidente" teoria da bolha, conjunto de reflexões psicológicas, sociológicas, filosóficas, políticas e antropológicas que, imagino, será uma ponte para uma Nova Teoria Crítica. É provável que a leitura seja cansativa, mas sinto muito, a objetividade jamais será minha virtude ...



A Meritocracia e a Vivência Universitária: críticas e concepções

Uma das questões básicas a ser analisada dentro do funcionamento da universidade é o seu acesso. A meritocracia é praticamente senso comum (se não totalmente) dentro dos grupos que regem a universidade e integrantes da elite em geral, especialmente a intelectual (inclusive a de "esquerda"). O argumento é o de que a demanda de pessoas que desejam ingressar no ensino superior supera em muito a oferta de vagas o que faz com que se torne inevitável a realização de um processo seletivo, que escolha os melhores para o ingresso na universidade. Outro argumento também corrobora esse entendimento: a vinda de alunos "realmente" qualificados faz com que o ensino superior não perca sua qualidade e não perca o posto de "centro de vanguarda intelectual", em que as diretrizes de funcionamento da sociedade são planejadas. Algumas críticas, embora interessantes, não rompem a bolha sociológica de onde estão inseridas. Pseudo-soluções, altamente paliativas e, possivelmente, fruto mesmo de uma crise de consciência entram em tramitação. O exemplo mais evidente disso é a criação de um "quarto" ano, uma espécie de cursinho para alunos de escolas técnicas públicas. Trata-se de uma prática incoerente a priori, que infelizmente não se pode traduzir como solução de curto-prazo, quanto mais de caráter definitivo, como parecem pretender a elite política. Eles parecem (ou não querem) entender que, na pior das hipóteses, a alteração do quadro educacional dever-se-ia dar dentro do ensino médio - e antes disso, obviamente - e não criando-se mais um entrave, que reflete, pelo método, nada mais do que a coroação do ensino pragmático e naturalmente vazio, acrítico e privatista.

Mesmo boa parte das críticas mais ostensivas ao vestibular acabam por não negar segmentos de sua lógica perversa e, com isso, sua própria existência. O que se pensa, no melhor das hipóteses, é criar condições iguais para se disputar as vagas para a universidade. Pouco se questiona, nesse raciocínio, o óbvio direcionamento e seleção "filosófica" que o conteúdo das provas acaba por exprimir. Mais uma vez, só se pensa pragmaticamente, só se importa a respeito do ingresso de alunos de ensino público (e/ou pobres, e/ou negros) na universidade, para que, posteriormente, galguem bons cargos no mercado de trabalho, como "alpinistas sociais". Esta é uma clara concepção elitista, que entende a emancipação e o "sucesso" do ponto de vista do status econômico.

Ao entendermos a meritocracia como lugar comum do pensamento social, acabamos por entender realmente que a universidade é um local negativamente privilegiado, como se se destinasse para "predestinados" cultural e economicamente. Claro, se o diploma serve como diferencial no mercado de trabalho e como símbolo de status dentre os seus semelhantes, é cabal que exista um processo "justo" e rigoroso de seleção, pois toda essa lógica se insere perfeitamente na realidade em que vivemos. Assim, a "bolha" de homogeneidade cultural entre os partícipes de tal processo não é rompida; as limitações estruturais do sistema capitalista (como a incapacidade de se universalizar o ensino superior) são vistas como sendo pressupostos incontestáveis da própria sociedade. Em outras palavras, ou o indivíduo se subjuga à essa realidade, respeitando passivamente seus alicerces, ou então está à margem do sistema - fora da "bolha".

Não entendem os críticos tradicionais que a procura de métodos alternativos (como um vestibular mais "humano" e flexível), embora seja uma iniciativa extremamente válida e corresponda, de uma certa maneira, a um rompimento drástico como relação aos paradigmas alicerçantes de funcionamento da sociedade pós-moderna, ela representa uma solução apenas de curto prazo, na medida em que, como se pôde observar nas últimas décadas, as estruturas que se pretendem dirigentes da convivência humana apresentam uma capacidade imensa de se reajustar e de se reconfigurar à realidade emergente, em geral como uma rapidez impressionante. Isso significa, no exemplo em questão, que tão logo as pretendidas mudanças na forma do vestibular sejam implantadas, os conglomerados do grande ensino privado alterariam seus currículos de forma a direcionar as matérias à nova demanda vislumbrada pela burocracia universitária (tendo-se como hipótese a não conexão direta entre esta e o setor educacional mencionado, o que não necessariamente é verdade, e que, caso existente, tornaria a pretensa transformação do quadro ainda mais entravada). Em pouco tempo, todo aquele espírito esperançoso de se alterar dramaticamente o perfil dos ingressantes na universidade, a fim de se buscar maior pluralidade social e maior integração da universidade à sociedade "externa", seria destruído, na medida em que os princípios éticos norteadores da efetivação de um processo seletivo mais diferenciado seriam desvirtuados e focados de um ponto de vista extremamente pragmático, competitivo e, obviamente, mercadorificado. Em última instância, o ensino de novas matérias, como Filosofia e Sociologia, no ensino médio se transformaria, metodologicamente, igual às demais; o espírito crítico, mesmo se fortemente evocado dentro das questões de vestibular, seria transmutado em "artimanha", justamente para atender o fim de se acertar mais pontos. Diante dos princípios privatistas que compõem fortemente a sociedade, seria inviável conceber que, peculiarmente, essas disciplinas (ou quaisquer outras) seriam ministradas como fins morais e éticos de constituição dos indivíduos e da coletividade - transcendendo sectarismos altamente vigentes (e também expressões da principiologia pragmática) que classificam esse comportamento almejado como naïve, enquanto captam e subvertem tais noções e aplicam-nas no meio empresarial, coisificando mais um inalienável atributo humano. Seria esperado, enfim, que tudo se transformaria em "técnica" a mais a ser transmitida pelos "magos" professores de cursinhos, para que "vestibulandos" (a expressão parace caracterizar uma função sociológica, um trabalho, um modo de vida, na medida em que se tem a noção da necessidade de "especialização suprema" nessa atividade para que, então, se ingresse na "vida" de facto) consigam entrar na USP e, paralelamente, se transformarem, mais uma vez, em mercadoria valorizada, tanto para o futuro mercado de trabalho como mesmo para os cursos pré-vestibulares, por meio de estatísticas que os tornarão "campeões de aprovação" - uma espécie de certificado "ISO 9000" que se apropria dos corpos e mentes humanas para dar à empresa de educação (expressão claramente contraditória) uma diferenciação perante seus concorrentes. Mais uma vez, como se vê, a "bolha" não é rompida.

E por que não o foi ? Porque a meritocracia, mesmo nesse pensamento libertário acerca do vestibular, acaba sendo parte essencial de seu próprio argumento, que cabalmente se materializa; tal situação parece indicar que, na verdade, a meritocracia é um pressuposto tão óbvio que se torna um tabu em rodas de discussão - em especial naquelas em que constam aqueles que superaram esse obstáculo, é quase natural que a contestação desse sistema como um todo (e não somente de seus aspectos mais pontuais) se torne uma "heresia" ou um "utopismo deslavado". Não se compreende que a meritocracia é pate totalmente integrante de um sistema de classes, na medida em que é praticamente um topos para tal distinção. Isso se dá em três aspectos: primeiramente, a meritocracia funciona como instrumento para a renovação dos quadros dirigentes da sociedade - os elementos individuais não precisam ser necessariamente os mesmos, contanto que a totalidade permaneça existente; afinal, no caso da universidade, não é possível dizer que o processo seletivo seja perfeito em selecionar sempre aqueles que vieram das grandes escolas particulares. Contudo, mesmo quando se pensa que ele falhou, ou seja, permitiu a entrada de alguém que jamais frequentou a educação privada e estudou por conta própria após o término dos estudos regulares, é tácito supor que, na próxima geração, esse indivíduo terá ascendido à condição social de seus pares da vida universitária e, com isso, proporcionará a seus descendentes oportunidades educacionais melhores (no sentido da maior facilidade em ingressar no ensino superior gratuito de qualidade); nesse entendimento, houve simplesmente uma renovação nas classes superiores, e não uma transformação sistêmica da sociedade. Secundariamente, a meritocracia funciona como fulcro existencial entre as classes sociais, na medida em que são as superiores (e não a sociedade como um todo, já que se pressupõe que a sua totalidade, por conter setores "não-intelectualizados", é incapaz de criar métodos de seleção adequados - e, subliminarmente, entende-se aí uma forte conotação positivista na concepção de "capacidade") quem determinam exatamente quais os requisitos para que este ou aquele indivíduo ingresse na universidade. A noção de qualidade do aluno, aí, é atribuição parcializada de determinado setor, que se aproveita de sua condição social para propiciar a seus pares as ferramentas exigidas pelo processo seletivo. Nesse contexto, cria-se um gap de oportunidades entre aqueles que dispõem de condições para seguir um programa determinado, na verdade, por eles mesmos (como as exigências do vestibular) e aqueles que dispõem de conhecimentos e construções culturais distoantes dessa concepção e carecem, em contrapartida, de condições materiais para se colocarem em pé de igualdade com o outro grupo. Nesse sentido, o terceiro aspecto em que a meritocracia transparece como método de seleção parcial é em razão da diferenciação econômica que, em consonância com a meritocracia intelectual/política oriunda da segunda diferenciação, fazem com que o processo seletivo não se torne, jamais, um processo social, mas sim uma escolha "intra-classe". Quer dizer que, em detrimento da organização da sociedade baseada num conceito individualista/monopolista de eficiência econômica, torna-se cabal que os setores mais bem colocados socialmente serão aqueles que, de acordo com a organização do mercado, serão os mais capazes de utilizarem sua condição e, assim, pagarem pelas melhores escolas/cursos preparatórios. De fato, a "concorrência perfeita" também não se realiza aí, já que os centros com maior índice de aprovação (que também é oriundo, em geral, não só da dita "excelência" do ensino, mas também pela condição sócio-econômica de seus participantes - caso não precisem trabalhar, poderão se dedicar integralmente às funções escolares), se utilizarão de tal carimbo para conquistarem cada vez mais o caractere econômico social da inventiva economia eficiente: a mais-valia. Com isso, o setor educacional público, cada vez mais abandonado tanto por não se configurar mais como sendo, de acordo com essa lógica (tida como "supra-histórica"), o mais eficiente, como, por causa disso, ser um dos primeiros a ser relegado a planos inferiores em termos de investimento para o beneficiamento de outros setores, como o pagamento das dívidas (que por sua vez realimenta o cume social dos grupos mais abastados e, como isso, reforça a lógica de diferenciação dentro do quadro destacado), fica destinado às populações mais paupérrimas e totalmente desprovidas de recursos para a inversão de sua condição social. A universidade, assim, se configura cada vez mais como posto de preparação para o mercado de trabalho e para a consolidação/ascensão social, corroborando de maneira eficaz os princípios meritocráticos que regem a sociedade e à ela mesma; toda essa realidade, presente de forma massacrante (com um tônus vigoroso, de "obviedade ululante"), acaba por ser apreendida pelas subjetividades sem questionamentos, tornando um enorme problema no melhor que se poderia conceber acerca da modernidade e da capacidade humana de se auto-organizar.

Supondo que a meritocracia se configurasse, de fato, como um conceito metodológico "neutro" de seleção para a universidade (ou seja, em que condições econômicas, políticas, sociais e culturais de determinados grupos não fossem fatores de privilegiação nesse processo), ainda assim um vestibular não tecnicizado não seria a melhor maneira de se ingressar na universidade. Isso, obviamente, quando se tem em conta a universidade como sendo um espaço social. Ou seja, prévia e contiguamente ao debate sobre o acesso à universidade, é a concepção sobre a mesma que está em disputa. Se se tem em vista a universidade como espaço de diferenciação social, atrelada a uma forte noção positivista da supremacia da ciência sobre outras produções humanas e se, evidentemente, existe o entendimento de que a alocação eficiente de recursos significa investir capital de forma a potencializar capacidades individuais (o que faz emergir a noção do ensino superior, mais uma vez, como formador exclusivo ou essencial para o mercado de trabalho), nem assim seria possível conceber uma neutralidade metodológica de seleção. O projeto que se pretende representante da concepção liberal de mundo, que evoca para si a doutrinação e teorização sobre o respeito e valorização às inalienáveis capacidades humanas individuais, fracassaria retoricamente na tentação de descobrir a "imparcialidade". Isso porque, sabidamente, noções como "positivismo", "alocação eficiente de recursos", "capital" e "mercado de trabalho" estão intimamente ligadas à contemporaneidade e ao modo de produção sócio-econômico vigente. A busca de neutralidade perante uma circunstância resulta invariavelmente numa tomada de posição sobre a mesma circunstância, e pela relação desta com as demais também é possível dizer que ocorre relação diferenciada com estas (e, inclusive, consigo mesmo), a partir de tal comportamento, dito "objetivo". Em suma, se há seleção, há subjetividade. Se há referência externa à totalidade social ("capital", "mercado de trabalho"), há subjetividade. Em todo esse entendimento, conforme mencionado, fica patente a forte relação dessas concepções como a tácita produção cultural em voga. Não é possível, dentro desse modelo meritocrático, pensar numa universidade como espaço, já que todas as estruturas, sociais ou não, são segmentadas, resultado de uma constante (e bem sucedida) tentativa de atribuição de valor monetário às mesmas. Universidade é universidade; arte é arte; cultura é cultura; sociedade é sociedade. Cada um tem seu espaço próprio e "privilegiado", e cada vez menos há mesmo uma "intersecção" entre esses setores. Diante dessa realidade, é inconcebível um processo seletivo e uma universidade humanos sendo o primeiro processo seletivo, e o segundo, universidade tais quais se definem hodiernamente.

A armadilha de se crer numa universidade mais humana por meio de um processo seletivo mais justo se desfaz a partir do momento em que se questionam alguns aspectos (que seguirão para o entendimento de um conceito totalmente novo de universidade, quando a entendemos como um processo contínuo de auto-reformulação). Tais aspectos precisam de urgente contraposição, na medida em que se faz crer na sua existência como um fato dado. Primeiramente, é necessário questionar a noção da universidade como espaço institucional-burocrático supra-histórico. Ou seja: precisaria mesmo a universidade ser esse local físico separado das demais estruturas da sociedade, ainda que, eventualmente, possua vasta extensão e principiologicamente se insira como bem público ? Em segundo lugar, seriam as segmentações e especificidades de cursos e disciplinas (como, por exemplo, Economia Agroindustrial ou Biotecnologia), além das suas curtas durações (entre dois e cinco anos, com predominância cada vez maior para o prazo mais exíguo) um fenômeno normal do círculo universitário ? Em terceiro lugar, seria, de fato, a universidade o ente dotado de exclusiva (ou principal) legitimidade acerca da apreensão do conhecimento quando se tem em conta o fenômeno descrito no questionamento anterior ? Em quarto lugar, seria a seleção dos "melhores" dentre os pretensos ingressantes o íngrediente para a dita perenização da universidade como local de excelência da produção científica da sociedade ? Em quinto lugar, que legitimidade teria a conceituação dessa produção científica perante a sociedade e a si mesma caso ela de fato não seja produto da totalidade do corpo social ? Finalmente - e uma das questões mais relevantes - é possível afirmar, de fato, que a escassez de recursos que leva ao uso da meritocracia como elemento definidor da composição da universidade seja um fato dado ou, ao invés disso, uma condição que remete linearmente às limitações do sistema econômico vigente ? Todas essas questões, de alguma maneira, amarram a universidade à meritocracia, e indicam a dependência de uma perante a outra para o seu funcionamento.

O que se está tentando mostrar é que a relação entre a universidade e o modo de produção capitalista foi um dos fatores mais relevantes na ascensão do método meritocrático de ingresso, que serviu historicamente primeiro para controlar a demanda cada vez maior por parte de segmentos da sociedade que ascendiam economicamente mas não dotavam dos títulos acadêmicos que lhes dariam, em primeira instância, o status social que almejavam e, a seguir, a permanência no segmento social objetivado, para que, então, reproduzissem a lógica de busca de júbilo que o sistema econômico lhes garantia por meio da conquista progressiva de poder. Secundariamente, o método meritocrático contribuiu para a renovação dos quadros superiores da sociedade, dando-lhe o dinamismo necessário para tornar mais eficiente a gestão dos recursos mercantilizáveis. Terciariamente, a meritocracia, mais um elemento capturado por uma noção cada vez mais centrada na mercadorificação das coisas e no aumento da eficiência da totalidade do sistema (de acordo com noções peculiares sobre o significado de tal eficácia, conforme já mencionado), também foi reificada, tornando-se um elemento de comercialização e disputa entre setores médios da sociedade, cada vez mais influenciada pela significância do termo "merecimento"; mais contemporaneamente, a noção do self made man with no strings attached, ou seja, o indivíduo que conquistou o "seu lugar ao sol" sem depender de ninguém. Esse processo levou, obviamente, a uma grande dinamização de outros setores da sociedade que não a própria universidade, especialmente o mercado de trabalho e a educação basilar privada. Enquanto isso, no plano essencialmente internacional, o setor público se comprometeu cada vez mais com empréstimos vultosos, a fim de tentar estancar aumentos expressivos de déficits orçamentários e, implicitamente, se adequar à era cada vez mais presente do capital virtual, não produtivo, empregado em larga escala nos setores privados e por países com disponibilidade monetária para fazê-lo. Nesse meio termo, a eficiência do Estado em gerir recursos passou a ser cada vez mais contestada, a tal ponto em que, em nome da já pronunciada "alocação racional de recursos", o setor privado se ocupasse cada vez mais em coordenar atividades até então intrinsecamente ligadas ao poder público (especialmente as de caráter econômico), enquanto a legitimidade, elemento político da mais alta relevância para a permanência da ordem institucional, centrou-se no Estado, capaz, à esta altura, de perenizar o discurso também altamente em voga da democracia representativa, outra espécie de meritocracia, desta vez atrelada mais diretamente às questões referentes ao controle do poder, e que se fez passar como sendo a realização plena das capacidades políticas humanas dentro de um órgão de grandes proporções, da mesma forma em que assentava, de maneira implicitamente análoga ao resultado dos processos de seleção da universidade, a divisão social do trabalho e, com isso, sedimentou a imobilidade das relações de poder na sociedade sob uma outra perspectiva - a política - já que contribuiu, pelo distanciamento cada vez maior dos indivíduos perante o primado da auto-representação, para a despolitização dos grupos sociais.

O espaço segmentado, e não permeável à sociedade que é ocupado pela universidade é outro momento em que a meritocracia, ainda que implicitamente, se faz presente. A construção de um campus vasto, inserido num local razoavelmente distante do centro da cidade carrega uma noção implícita da universidade como sendo uma estrutura diferenciada da sociedade, como um local criado para um fim específico, não compartilhável com outras aitividades desenvolvidas pelo resto da sociedade. Em certa medida há, mais uma vez, o forte elemento da busca pela eficiência, que leva a criação de espaços cada vez específicos para o melhor desenvolvimento de funções cada vez mais específicas. Dentro da universidade, o processo de separação de funções também é parecido, o que leva constituição de faculdades distantes entre si e a concentração de funções específicas em cada setor do campus. Isso, obviamente, também atende a um claro entendimento da universidade como casa do saber, como espaço de aplicação dos princípios positivistas - a busca da objetividade, de se fazer a "verdadeira" ciência. Temos, então, num primeiro plano, o espaço universitário, em razão da fragmentação explicitada, como aquele que se coloca na posição legítima, historicamente, de "pensar" a sociedade. Evidentemente, os planos se interseccionam intimamente, e é dessa maneira que se constitui, sob outra perspectiva, a noção de meritocracia - que contribui, como será visto a seguir, na construção da totalidade ideológica que é apropriada nas subjetividades e reproduzida pelas mesmas. Os muros construídos no entorno da universidade carregam a compreensão de que a exterioridade à ela abriga seres e estruturas que não têm relevância para a constituição daquela, seja por um aparente "risco" à sua integridade, seja pela noção de que o que é produzido fora dela não contribui para o cumprimento da "missão histórica da universidade. Desta forma, vem à tona dois princípios que compõem fortemente a existência universitária e que tornam-na essencialmente meritocrática. O primeiro é o de que quem "ingressou de fato" na universidade por meio do vestibular é quem tem a (única) legitimidade para usufruir de suas estruturas físicas. Quem não "pertence" à instituição de alguma forma se apresenta como um "risco" à sua existência, por mais que, em tese, a universidade tenha mantido o seu discurso de servir à toda a sociedade. O segundo é o de que as relações estabelecidas no seio do cotidiano da sociedade não têm qualquer relevância para a maioria dos estudos exercidos dentro da universidade. Não só porque, como será visto a seguir, não interessa aos interesses predominantes que regem os rumos da universidade como, de fato, não são caracterizados como "ciência", como conteúdo racionalizável e coerente com o caráter "rigoroso" daquela instituição. Nesse entendimento, aprofunda-se a noção, inclusive, de que o que é produzido dentro da universidade é "teoria", e os eventos externos, a "prática". Isso faz parte, obviamente, da separação de funções existente na sociedade (trabalho intelectual versus trabalho material). Com essa divisão, aos universitários faz-se crer que são os únicos capazes de aliar os dois conteúdos - já que lidam com o único conhecimento teórico válido, a saber, o produzido dentro da universidade e, ao saírem da mesma, enfrentarão mais preparados o mercado de trabalho, tido como o mais próximo da "prática". Entretanto, mesmo nesse caso ocorre uma insatisfação por boa parte do quadro discente: muitos acham que a universidade deveria preparar melhor para o mercado de trabalho ao invés de se preocupar tanto com o conhecimento não perfeitamente instrumentalizável. Embora vagarosamente, a universidade tem se dirigido nessa direção.

A aparente contradição vista no parágrafo anterior (que opõe o dito sentido público da universidade à sua privatização) é resolvida a partir do momento em que se enxerga, mais uma vez, a simbiose entre setores da universidade e do famigerado mercado. Nesse sentido, a universidade transparece como sendo não um espaço acadêmico, mas sim uma empresa, um local que não atua mais sob a égide da busca pelo desvendamento das questões sociais, mas sim pelo atendimento a uma demanda exógena ao caractere humano, símbolo cada vez mais presente do sistema capitalista em seu momento pós-moderno. Ou seja, a mais-valia. Essa alteração na função do positivismo nos rumos da ciência desvirtua-a em seu discurso interno (não se busca mais necessariamente a "verdade", mas aquilo que é mais "eficaz" - há, portanto, uma instrumentalização da metodologia científica pelos interesses mercadológicos), e leva a universidade a perder a sua função de agente histórico, de vanguarda nas transformações sociais - agora, cada vez mais, ela é simplesmente reativa aos interesses mencionados. Ainda assim, o nó meritocrático não é desfeito: pelo contrário, ele é apertado, na medida em que se concebe que essa instrumentalização da universidade por um interesse cada vez mais parcializado permite àqueles que funcionam como elementos de sua efetivação dentro da universidade como "especiais" nesse novo jogo - ao saírem desse primeiro estágio, poderão, em tese, desfrutar de posição privilegiada no mercado de trabalho; eventualmente poderão liderar esse processo numa geração futura. Isso quer dizer que a disputa por uma vaga no ensino superior aumentou cada vez ainda mais, e é esse o caractere subliminar que reforça a meritocracia universitária. Essa dinâmica altamente competitiva também contribui para que a universidade reforce seu caráter fabril - desta vez, de diplomas, que se tornarão instrumento diferenciador no mercado de trabalho em geral e na própria academia.

Outro ponto de extrema relevância no que toca à compartimentalização dos espaços dentro da universidade é a evidente divisão física e teórica existente entre as faculdades dos campus, fenômeno presente na maioria das universidades públicas. Este é mais um caso em que se busca cada vez mais o aprofundamento de questões intra-disciplinares (cada vez mais técnicas e, portanto, com linguagem exclusiva - o que exclui a imensa maioria da sociedade de seu debate), em detrimento do afastamento do entendimento transdisciplinar dos conteúdos ditos científicos. Gradativamente, há um interesse em desvendar processos que, dada a sua especificidade, atendem a nichos cada vez mais restritos da sociedade; observa-se aí, mais uma vez, uma correspondência entre problemáticas pontuais, geralmente voltadas à resolução de casos práticos, realizadas por setores do mercado de trabalho. A necessidade de se aperfeiçoar os recursos despendidos e a busca de uma análise mais pura (entendida, inclusive, como desideologizada), reflete no afastamento físico entre os departamentos e faculdades. Isso, obviamente, torna a universidade sem uma noção própria de todo, o que contribui para uma visualização cada vez mais evidente desse espaço como de caráter "produtivo", on demand, sem uma preocupação reflexiva, que leva a uma mecanização da vida universitária (já que se abstém do "pensar crítico"). Mais ainda, interfere dramaticamente nas relações sociais e na formação individual de todos que vivem nessa realidade.

Diante do já descrito processo de isolamento da universidade, em que cada vez mais se criam entraves para o relacionamento desta com a sociedade, torna-se mais claro outro processo existente dentro desse meio. Em conjunção com a contundente segmentação física dos espaços, a fragmentação positivista dos estudos, um enorme senso pragmático por parte dos alunos, e a origem mais ou menos homogênea entre estes, a distinção do espaço universitário cria, inelutavelmente, uma cultura social e política próprias, uma espécie de "bolha" universitária, em que podem ser observados comportamentos e sensos comuns tácitos em comum entre os frequentadores do campus que, por isso mesmo, são dificilmente apreensíveis pelos mesmos. Por meio desse processo, a mecanização da vida universitária se torna inquestionável. Ao contrário do que possa parecer, contudo, essa antropologia própria não significa uma refração a modelos comportamentais exógenos ao espaço universitário - o fato é que muitas dessas atitudes peculiares são desenvolvidas inicialmente fora da universidade, por meio de processos pedagógicos e relacionais que remetem ao cotidiano de cada indivíduo durante a sua formação pré-universitária. A condição de classe é, certamente, um dos fatores determinantes para essa homogeneidade, que se atesta no ingresso meritocrático à universidade. O jovem de maiores posses, como todos os demais, passa por um processo de rotinização de sua vivência, em que, por meio das experiências vividas, consolida determinadas percepções de mundo. Ao não conviver com pares de condição econômica radicalmente distinta, ele carece de um entendimento de si mesmo e da realidade que lhe permita questionar enfaticamente o mundo em que vive. Como caracteriza o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, os topos (lugares comuns), ao se agregarem criam um topoi (elemento máximo formador de uma cultura). Cada agrupamento social, por mais que seja de tamanho ínfimo, desenvolve laços em comum após certa convivência. Numa sociedade em que as similitudes econômicas acabam por moldar mais fortemente comportamentos sociais análogos (e cujas grandes diferenciações econômicas permitem a formação de grupos mais coesos internamente), torna-se possível à boa parte dos jovens que ingressam na universidade pública terem essas concepções em comum. Entretanto, ao contrário do que se imaginaria, essas convergências não se dão num plano mais ou menos objetivo, como por exemplo a afinidade política, o gosto musical, o estilo de vida ou mesmo o time de futebol. Na verdade, essa convergência não se dá nesses fins, mas sim é procedimental, muito mais de caráter relacional, por mais que hajam óbvias discrepâncias aparentes entre cada indivíduo. Ainda assim, essas indiferenças mencionadas resultarão, dialeticamente, num determinado tipo de interferência na sociedade e, certamente, numa apreensão individual de tal circunstância. A sociedade pós-moderna, um dos cenários em que parte desse processo pode ser observado, não é um fenômeno que abarca a totalidade das sociedades e das classes. É muito mais uma condição que se coaduna com o que se verifica na vida universitária, já que esta não é só passiva desse movimento ideológico, ela naturalmente interfere-no e, por circunstâncias ligadas ao sistema econômico vigente (que influi fortemente nesse meio), torna-se um veículo expansionista de seus princípios, que em última instância contribuem para a potencialização das relações econômicas praticadas e para a alteração do tipo de relação social encontrado em outros meios.

Dessa forma, um ponto nevrálgico em que essas relações peculiares se manifestam mais abertamente são as interações sociais. Pode-se dizer, em geral, que cada individualidade possui, em volta de si, uma espécie de espaço público, região em que ela manifesta, como o termo apresenta, publicamente determinados fatos, concepções e experiências. Ao mesmo tempo, e concentricamente à esfera anterior, o indivíduo ostenta um espaço privado, região íntima, onde mantém reservadas à pessoas extremamente próximas fatos, concepções e experiências que julga desnecessário compartilhá-las publicamente. A subjetividade, elemento interiorizado em cada ser, contribui para a seleção das informações mencionadas. De maneira bastante genérica, é possível observar que em círculos sociais em que há homogeneidade de condições sócio-econômicas inferiores, há, evidentemente, preocupações e concepções radicalmente diferentes das existentes num meio onde o status econômico é mais elevado. Ao mesmo tempo (e, em parte, em razão disso), nota-se que o espaço público individual se conforma numa espécie de esfera de grandes proporções: ou seja, há um grande compartilhamento de informações e experiências, o que leva a crer que a noção de coletividade e de uma despreocupação com questões como o status social perante outrem. O espaço privado é bastante restrito, o que faz crer num forte senso de confiança entre as individualidades. Nas classes mais abastadas e, por extensão, no meio universitário, a divisão entre os processos se inverte: o espaço público é restrito, e o espaço privado ocupa quase a totalidade das informações compartilháveis por cada indivíduo. Pode-se depreender daí uma clara noção individualista - e, por dedução, a falta de uma noção de coletividade - além, indubitavelmente, de um senso competitivo e de uma falta de confiança entre as partes. Como se pode ver, ao mesmo tempo em que produzem um determinado padrão de vida, esses grupos sociais também expressam uma concepção diferenciada de interação social. Conforme as subjetividades apreendem certas experiências vividas nesse meio (pela interseção e sobreposição da relação familiar, das microrrealidades vividas nos círculos de amizades, dos processos pedagógicos, das captação de um determinado cotidiano - especialmente imagens em comum), elas reverberam em determinados comportamentos tácitos que, evidentemente, se interrelacionam e permitem a contínua auto-transformação. No mundo universitário descrito, embora haja cisões políticas, preferências musicais e estilos de vida quase que diametralmente opostos, a maneira de exercê-los é razoavelmente a mesma, assim como se dão os relacionamentos entre os indivíduos. Duas pessoas que gostem de tipos musicais totalmente distintos apresentam, na realidade, maneiras peculiarmente parecidas de apreciá-las. Dois indivíduos, mesmo que opostos em termos de extroversão/introversão, terão um tratamento similar às pessoas. No caso uspiano, é notória a superficialidade das relações humanas; a constituição de laços mais profundos, de amizades, escasseia; mesmo quando ocorre (em geral após anos - e não meses, como em outros meios), se dá por meio de uma relação diferenciada, muito mais como consequência de uma afinidade de escopo menor - afinidade política, por exemplo - do que em razão de experiências de vida de grande escopo, ou mesmo sem razão aparente (simplesmente se um indivíduo é simpático ou não, como também ocorre em outras realidades). Embora essa homogeneidade comportamental possa ser observada em diversos outros aspectos, o seu caractere primordial é, certamente, o tipo de relacionamento humano, possivelmente tido como frio, pragmático e, se não superficial, "politicamente correto". Aquela esfera influencia dramaticamente no entendimento das demais, interferindo em suas concepções, já que, necessariamente, estas (como a ação política) precisam do elemento humano para ocorrerem. A meritocracia, nesses termos, tem papel essencial na definição dessa realidade e, portanto, na existência da vida universitária como realidade peculiar à vida societal. Todavia, como aquela não é perfeitamente eficaz na seleção de indivíduos com a homogeneidade comportamental explicitada, ocorre invariavelmente a entrada de indivíduos com concepções de vida radicalmente distintas daquelas. O choque social, nesses casos, é de enormes proporções, primordialmente para quem é "diferente". Sendo minoria, e por mais que possa apresentar determinadas afeições pontuais com aspectos presentes na antropologia social dominante, ele é, em geral, hostilizado, por mais que, no caso da vivência praticada na cidade universitária exista, objetivamente, um culto ao já mencionado "politicamente correto". Por ser um momento de elevada importância na vida do jovem (já que, dentro desta sociedade, significa a oportunidade de alcance do "sucesso profissional"), o ingresso na universidade apresenta consequências que se estendem por todo o resto de sua vida. Resta a ele, em razão desse conflituoso processo, poucas saídas: a alienação de sua subjetividade, ou seja, a assimilação e sujeição aos padrões comportamentais predominantes, em busca da aceitação do grupo e, assim, uma convivência, em tese, menos conflituosa; a fuga completa dessa realidade em nome da crença e manutenção de seus valores, que poderá resultar em total isolamento e, em geral, numa passagem traumática pela vida universitária; a busca por indivíduos que lidam com o mesmo problema, a fim de formar um grupo coeso que se una, principalmente, pela negação a esses princípios majoritariamente presentes na universidade - o que pode gerar afastamento, mas sem sensação de exclusão social.

E porque essa análise do comportamento social dentro da universidade se torna tão relevante ?

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Confiança

Eu realmente gostaria de entender o que é confiança. Para mim, confiança sempre foi algo vago, algo em que as pessoas se apoiassem para simplesmente terem certa segurança. A confiança flutua. Uma pessoa pode trair uma confiança por interesses próprios, pois isso é o que está acima de tudo para o ser humano.

E como se ganha uma confiança perdida? Ou como se perde uma confiança conquistada? Parece que é muito fácil perder a confiança, e que difícil é reerguê-la. Eu acho isso tudo muito engraçado, pois se você traiu a confiança, quer dizer que você não é confiável. Se você não é confiável, como que um dia puderam confiar em você?

Eu nunca confiei em ninguém, mas também nunca deixei de confiar. Na verdade, confiança não existe. Acho que você, leitor, me entende. Eu conto algo a você, pois você é meu melhor amigo. Você, que tem um outro melhor amigo, conta a ele, e isso vira uma bola de neve.

Contando a um amigo, você está confiando nele, e traindo o outro que te contou. E assim, a cada ‘melhor amigo’ que essa história chega, uma confiança é obtida enquanto que uma outra é perdida.

Logo, a confiança parece estar sujeita às condições ideais de temperatura e pressão da química, ou a alguma lei aplicável à sociologia. E as pessoas tratam da confiança como se estivessem tratando da virgindade de uma filha. Algo sublime, como um “Santo Graal” feito do mais fino ouro e com a fragilidade do mais fraco cristal.

O pior de tudo é que as pessoas passam a vida construindo “Santos Graais” e jogando-os às mãos de outros, que têm a responsabilidade de nunca derrubar aquilo. Porque, se derrubar...
Eu nunca pedi que ninguém confiasse em mim. Muito pelo contrário, eu sou extremamente bocudo. Não estou nem aí. Já perdi muitos amigos por isso, e mesmo assim continuo sendo.

Houve uma história engraçada, muito mesmo, que me ocorreu esses dias. Alguém perdeu a confiança comigo. Não sei se esse alguém percebeu, mas na perda de confiança dela, ela me contou coisas que haviam sido confiadas a ela. Descobri eu que, no final das contas, todos haviam traído e sido traídos na história.

Mas é óbvio que não houve sensatez, e o único que admitiu o erro fui eu, claro... só não fechei esse círculo de desavenças pois acho que certas pessoas não têm ainda a capacidade de enxergar as sutilezas presentes numa amizade.

Uma amizade não é compromisso, não é obrigação. A amizade simplesmente é. Não existe confiança, não existe falta de confiança. A amizade só dá certo quando ambas as partes são desapegadas dessas futilidades, pois quando se verem presas a elas, logo ocorre um escorregão e está tudo acabado.

Amizade é isso? É se apegar a um escorregão? É esperar o momento de perder a confiança e assim acabar tudo? A confiança, então, seria algo bom? Ou seria apenas uma bomba relógio?
Realmente, estou muito confuso.

Espero ter uma visão esclarecedora logo sobre isso, pois está me consumindo por demais, como fogo sobre a água.