segunda-feira, abril 30, 2007

Em Memória a um Grande Coração

Como sempre nos últimos tempos, tenho milhares de coisas a fazer. Contudo, achei que seria mais sincero e conveniente se parasse de adiar o que tenho querido expressar. Dessa vez, não é mais uma das teses para a transformação social ou uma mera análise de estruturas hodiernas. É algo muito mais profundo, no sentido de provir mesmo do âmago, do cerne da minha subjetividade mais enraizada. Espero que a expressão dessas sensações num espaço público não seja constrangedor para os leitores. Talvez cite alguns nomes; posso retirá-los caso isso se torne inconveniente.

Hoje faz um mês que se foi um amigo muito querido. Uma pessoa com a qual não tive qualquer contato nos últimos quatro anos, mas que nos dois em que convivemos deixou sua marca em minha vida. Inelutavelmente, fará parte da minha história para sempre.

Nossa convivência remonta mesmo aos meus primeiros meses na GV, quando eu ainda contava inocentes quatorze anos. Aquela foi uma época pessoalmente muito difícil, mas representou um amadurecimento imenso, sem precedentes. Foram meus amigos que me ajudaram a transcendê-la positivamente, de tal forma que hoje me permito olhar para trás com grande saudosismo. Era o período dos "grandes descobrimentos"; um deles era o de que ter respeito para com os "famigerados veteranos" não significava submissão, como tentou me passar, à força, um certo Álvaro. A melhor marca de respeito para com seus semelhantes era tratá-los como tais, tendo-se como premissa a sinceridade e a fidelidade. Assim fiz grandes amizades.

Não sei em que medida alguns desses, mais relacionados com o tema desses escritos, compreendem a extensão da importância deles para a minha formação. Sabe, às vezes o tempo passa e é possível que nós nos esqueçamos da real medida das coisas, simplesmente porque elas se distanciam de nós e tomam uma forma, vamos dizer, reificada (ou idealizada, "positiva ou negativamente", talvez beirando até a indiferença). Comigo, no entanto, as coisas acabam funcionando de maneira um tanto diferente, principalmente pelo fato de a GV ter sido esse lócus central da minha "formação de vida", onde foram montadas as bases para o meu desenvolvimento intelectual na USP. Lembro-me razoavelmente bem de como conheci algumas das pessoas mais ligadas a esta reflexão.

Por causa da Mayra, que estudava comigo, conheci o Leo, grande figura. Ainda antes do final do primeiro semestre, fui convidado para ser goleiro num jogo para veteranos. A invitação foi feita pelo Tatá, e foi aí onde conheci várias pessoas legais. Uma delas, o Herman, jogava no meu time. Ficava atrás, de fixo, e era muito cobrado pelos companheiros. Ficava bravo com os seus erros e com os dos colegas, mas continuava a tentar. Confesso que eu o achei, naquele primeiro contato, um tanto folgado, mas isso provavelmente se dava pela personalidade mais expansiva dentro da quadra e pelas cobranças a este jovem goleiro.

Logo, no entanto, essa percepção se desmanchou, e nós nos aproximamos. Aquele grupo, que contava ainda com o Eric, o Patolino, o Zé, o Masayuki e outros, era especial para mim. Foi o primeiro, afora os amigos da minha própria sala, com o qual me senti identificado. Tanto que foi praticamente o único, afora meus amigos do 1ºH, que veio à minha casa no meu aniversário de 15 anos. Aliás, me recordo bem de quando naquele dia 06 de Setembro, último dia antes do meu aniversário, o Léo me ajudou a despistar todos os entusiastas (essencialmente aquele próprio grupo) da tradicional celebração do aniversário com lançamento de ovos (vários podres) e farinha. No primeiro dia após o feriado, todavia, não teve jeito: fui carregado à força para fora do colégio e então alvejado por cerca de cem ovos; obviamente fiquei sem condições de voltar para casa ...

Da minha parte, posso dizer que, com o Léo, com o Tatá e com o Herman desenvolvi uma afinidade muito especial. Era legal quando tentava ensiná-los a jogar tennis naquelas quadras próximas à São Camilo; talvez só o Herman tivesse alguma afinidade (o Léo era muito mais hábil com as raquetes menores, o Tatá um entusiasta das bolas maiores - talvez vcs não gostem destes trocadilhos ...). Quando entrei no curso técnico, a amizade se tornou mais próxima, ainda que a entrada à esta nova dinâmica tivesse permitido uma interação muito maior entre os "ex-bixos", formando redes de relacionamento extremamente complexas. A minha habitual distância das salas de aula e os nossos almoços nos saudosos "Lanxereta" e "República" permitiam que continuássemos a interagir com frequência, com longas e divertidas conversas sobre os assuntos mais nonsense possíveis. Claro, como bons veteranos, também me auxiliavam a estudar para as provas de telecomunicações. Puxa, me lembro tão bem de passar manhãs (seja antes das aulas começarem, seja nos intervalos) e tardes compartilhando com o Herman a nossa timidez e as maneiras para contorná-la, além dos tantos causos engraçados com professores e as crises existenciais de cada um ...

O final do ano chegou e, como parte do inelutável processo de formação letiva, vários dos meus amigos se formaram (talvez a maioria deles, eu diria). Dentre eles, Léo, Tatá, Herman. Lembro que o Léo, logo em seguida, entraria em Fisioterapia na São Camilo; o Tatá, na FEI; o Herman iria fazer estágio, dizendo que mais tarde faria cursinho e entraria numa universidade pública. Com o Tatá (e, em menor grau, com o Léo), mantive contato por algum tempo. Lamentavelmente, pouco conversei com o Herman desde então. A minha decisão de me dedicar inteiramente ao cursinho em 2003 em nome de um grande sonho pôs em risco a continuidade da maioria dos relacionamentos.

Em 2005, fiquei muito feliz de ter encontrado o Tatá no mundo virtual e, mais tarde, o Léo. Foram algumas das primeiras pessoas que procurei ao ingressar no esdrúxulo orkut. Cheguei a pensar, à época, se essas pessoas me reconheceriam. Afinal, para tantos, o processo de afastamento vivido na transição entre o colégio e a universidade, a adolescência e a vida adulta, parecem ser naturais, e que indicariam mesmo o caráter essencialmente efêmero das relações humanas vividas naquele primeiro momento. Infelizmente, não achei o André; só o fiz muito mais tarde e, identificando a sua pouca assiduidade no orkut, não o adicionei. Porém, fiquei feliz, pois aparentemente ele havia concretizado o seu objetivo de ingressar à universidade.

Fiquei ainda mais contente quando reencontrei o Léo e o Tatá nesta última edição de 2006 do churrasco do querido Magali. Era uma alegria enorme, quase ufanista, de reavivamento de memórias de 5 anos atrás, aparentemente quase esquecidas. Mais uma vez, paro para refletir sobre essas sensações. Será que elas foram tão esfuziantes só em mim? Puxa, sinto uma felicidade tão radiante quando reencontro meus amigos, que definitivamente não consigo expressá-la literariamente. Senti falta do André naquela oportunidade; meus amigos, no entanto, disseram que ele estava bem.

Apesar de toda a distância temporal e física, apesar da fugacidade da memória humana em tempos de completa reificação das relações intersubjetivas, senti um dos golpes mais duros da minha vida ao ler um despretensioso e-mail neste 31 de março último. Nada, nada fez sentido para mim naquele momento e, confesso, ainda é um tanto complicado racionalizar todo esse processo. Na memória, fresca estão as conversas, as brincadeiras, os sorrisos, o tom de voz, a irreverência. Aqui não me importa mais se ele sequer se lembrava de mim, mas meu sentimento permaneceu o mais fraterno possível em todos esses anos. Mas senti, e muito, o peso de não ter estado ao seu lado nestes últimos meses. Eu entendo e respeito completamente a sua postura de não querer que comentassem sobre a sua doença, mas realmente sofri muito, muito mesmo, com esta notícia. Senti um vazio imenso, até mesmo por não ter estado presente em seu velório. Senti uma dor aguda por ser incapaz de fortalecer sequer a mim mesmo, quanto mais a seus amigos mais próximos e familiares, que sequer conheço.

No auge da minha inocência, fiquei com a sensação de que tudo havia acabado, de que não haveria chance de voltar atrás, de que tudo passava a ser, então, memórias, enfim, um sentimento de perda irreversível, que se encerrava em mais sofrimento. Acho que o que mais queria era reencontrar esses amigos mais próximos, compartilhar essas percepções e transcendê-las, de forma a fazer com que nos reaproximássemos de novo. Fui à missa de sétimo dia, numa igreja da Mooca, mas infelizmente não achei ninguém. Eu reconheci a família do André, e acabou me confortando bastante, naquele momento, irradiação subjetiva de tranquilidade, calma, serenidade, como se percebessem que ele estaria bem onde estivesse.

Minha namorada, com toda sua sabedoria, considera que minha condição de ateu talvez me impeça um pouco de ver a transcendência da vida, ou seja, da inexistência (ou da não drasticidade) da cisão entre a vida e a morte, do "fim de tudo" na morte. Talvez esta seja uma visão, de fato, mais reconfortante; de fato, contudo, a dor persiste. Queria transformá-la naquele sentimento mais positivo de "fraternidade extratemporal", de quando nos lembramos de uma experiência onde o tempo não é condição essencial para que a valorizemos, mas ainda está difícil. A verdade é que minha nula vivência com este tipo de adversidade impediu que eu amadurecesse nesse sentido. Mas talvez nunca estejamos "preparados" de fato; se o estivermos, também corremos o risco de transformar nossa reação em inação, em apatia. Anestesiar a dor por meio da indiferença é o caminho menos humanizador para o acúmulo da experiência. A percepção mais clara que pude ter é a de que tenho todo o poder mental, intelectual e ativo de mudar o curso da história do mundo, de trilhar caminhos para nossa emancipação; mas é impossível alterar a inexorabilidade do caráter imponderável da vivência humana. Isso não podemos controlar.

Talvez a melhor saída seja, realmente, tentar trazer de volta as amizades de outrora, não deixar que o legado dessas experiências, dessas vidas em conjunto, se esvaziem. O tipo de sociabilidade existente no mundo hoje, no entanto, é um grande obstáculo para isso. Mas ao mesmo tempo, quem sabe, a partir do momento em que, de fato, começarmos a intensificar mais a vivência com nossos entes queridos, poderemos criar vias alternativas de socialização que, em última instância, invertam as dinâmicas opressivas de nosso mundo e pautem as relações humanas por meio de um digno e constante recohecimento entre as pessoas.

Escrevi tudo isso para reverenciar e homenagear a memória de meu amigo, ao mesmo tempo em que tentei expressar as minhas inquietações mais profundas. André, por mais que vigore, persista e se intensifique o distanciamento espaço-temporal de nossa feliz convivência, sua marca essencialmente positiva em minha vida é inelutável.
Obrigado por tudo e até breve.

Sérgio Roberto Guedes Reis.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom. Está me fazendo pensar muitas coisas aqui.

Não vou comentar aqui. Comentaremos isso pessoalmente.

Abraço!

Unknown disse...

sérgio, vc é uma pessoa sensível como poucas que conheço. perdi um amigo também há uns 2 anos, e passei por um processo muito duro, de aceitação da mortalidade (inclusive de minha própria). mais, foi um processo de reviver a sensação de perda- que me acometeu uma única e dura vez, com a morte de minha avó. também me considero atéia, é difícil aceitar essas coisas... também é difícil aceitar a visão dos católicos/espíritas, de que tudo era pra ser... de que existe um Deus justo, etc etc etc. será que sou muito racional, materialista, descrente ou é injusto que as pessoas morram jovens? acho que, como vc disse, nunca estamos de fato preparados. e também concordo que a indiferença é hipócrita e desumana... longe de ter respostas, penso (e sinto) que compartilhar, através da literatura, mas não somente dela, seja uma forma de transcendência e de aprendizado... um abraço,